Eu, assim que cheguei a Portugal a trabalhar em um Café, fui tentar conversar com uma cliente francesa: Tu es professeur de Français?
Ela: Pardon?
Eu, no call center: Je ne parle pas
Français très bien.
Ela: kkkkkkkkkkkkk
Ela , a senhora do caixa de um supermercado (falando baixo para ninguém perceber): O que é isto?
Eu: beterraba.
E ela de novo: O que é isto?
E eu: É coco (rsrsrs).
Ela, toda sem jeito e chateada: é
que eu não conheço isto( falando baixinho).
Ela ficou sem graça, porque não
queria parecer ignorante. Eu não a achei uma ignorante, só achei engraçado
alguém desconhecer um coco. Mas o que é conhecido para uns, pode não ser para
outros. É no que dá morar em cidade cosmopolita! A senhora poderia usar a situação, para aprender mais uma curiosidade.
Eu ri, mas não foi de deboche.
Ela, a francesa também não riu de deboche (acho eu).
É que é engraçado ver alguém não
conhecer o que para nós é tão comum. Afinal, o coco é tão usado em bolos e
doces. Ah, mas já vem no saquinho. O bagaço do coco…
A miúda tinha acabado de chegar do Brasil e estávamos as duas na fila do supermercado, quando o
rapaz do caixa nos perguntou o que era aquela fruta (abacate). Ela começou a rir sem parar, deixando o rapaz e eu constrangidos. Ela não o fez por mal. É que às vezes o riso, se traduzido pode querer dizer: "como você ainda não conhece algo já tão comum nos supermercados daqui!?".
Apesar de que certos risos, se
traduzidos, melhor seria se não tivessem sido. Ontem mesmo eu recebi um sorriso
torcido, que traduzido diria algo como: "você é uma estrangeira ignorante". Por
inúmeras vezes tento explicar que quero um alimento sem carne e as pessoas pensam que estou me referindo à carne bovina. Aí dizem: “este alimento não contém carne; só frango, peixe, crustáceos”. Aff, para mim,
tudo o que ‘não dá na árvore’ é carne. Se não estou num estabelecimento, cuja
especialidade é a comida vegetariana, difícil é explicar que quero algo que não
contenha produtos de origem animal, se em tudo tem leite, ovos. Estes
ingredientes eu até posso tolerar, o que eu não quero é ca-dá-ver. "Mas se os
vegetais estão mortos, também são cadáveres." Deixa quieto, vai…
Mas o sorriso é uma forma de
comunicação não verbalizada, ou seja, que não usa as palavras sob a forma de sons,
para se dizer o que se pensa, mas que pode transmitir muitos sentimentos, até
mesmo de raiva ou de desprezo.
Ao receber sorrisos tortos,
palavras depreciativas, por ser estrangeiro, muita gente sai correndo de volta
ao país de origem. Eu não. Quero é mais conhecer a diversidade. Quanto mais
eu fico, mais eu conheço. E se pudesse, conheceria mais ainda. Paro para
observar que damasco aqui é mato, enquanto que no meu país é artigo de luxo. E fico
apreciando um pé carregadinho de maçãs e de pera rocha. Ops, um pé é
carregadinho de dedos e não de frutas! É que lá onde eu nasci se diz pé
de frutas e aqui se diz árvore de frutas. Lá se diz chupar laranja e aqui se
diz comer laranjas. Mas lá também, na minha cidade se diz: cá fora (como se diz
aqui) e noutra região do Brasil, riam de mim quando eu dizia isto, porque lá se diz (não,
se fala): aqui fora.
E as pessoas quando ouvem algo
diferente, a primeira reação que vêm é o riso. O riso deveria unir e não separar. Depende,
quando se ri de quem leva um belo tombo, eu não acho graça nenhuma. Quando eu
escorreguei aqui pela primeira vez, fiquei esperando um riso que não veio. Que
bom! Um senhor veio me levantar, todo preocupado. Ai, foi como um beijinho no dodói, tão
bom! Ele perguntou: magoou-se? E eu fiquei admirada com tanta gentileza. Voltando ao riso... Por outro lado, se saio de sombrinha ou guarda-sol na
rua, em dia de verão, o que vejo de risinhos contidos me deixam com vontade de ir embora. E voltando à gentileza, eu estava no centro de Lisboa, numa paragem do bus (é assim que os jovens falam e acho mais chique), quando vesti uma manga do casaco, percebi que a outra já estava esperando a minha mão. Um gentil primo (africano) já estava a me auxiliar, com todo o respeito. Fiquei admirada e contente por conhecer mais uma curiosidade. Será que lá no país dele é assim?
E para não perder o foco no riso, certa vez eu estava no supermercado
eu ouvi uma criancinha feminina a dar gargalhadas altas e gostosas, e o irmão que
já tinha atingido a fase do superego a repreendê-la dizendo: não rias assim! Na
época eu achei aquilo triste, mas agora eu já acho esquisito ver alguém rindo
às gargalhadas. No país onde nasci, o sorriso é algo bom, simpático,
hospitaleiro (a não ser quando alguém cai, né). Depois que me desacostumei daquele
jeito de viver, passei a ver o riso exagerado como algo estranho.
Dentro do meu próprio país, eu
tinha migrado de uma cidade, onde havia muitos amigos que me faziam rir até
doer o abdômen, para uma região onde raramente eu encontrava alguém com esse
espírito cômico. Quando fui passear na minha cidade, um adolescente olhou para a minha cara e disse para a sua amiga: "mas você é feia hein, fulana!". Fiquei brava,
achei aquilo o fim da picada, retruquei. Como pode um miúdo que nunca me viu,
mexer comigo assim! Eu havia me desacostumado. Lá, ainda era normal alguém mexer
com quem estivesse quieto. Era divertido, mas para mim já passara a ser
absurdo.
Noutro dia eu estava sentada na esplanada de um shopping,
ao lado de uma mesa onde havia uma família de traços e indumentárias meio de lá
de perto da Índia, talvez do Paquistão, tal-vez. A mãe me olhava e olhava. Logo
depois, pai e filha me olhavam e riam. Após certificação, não havia nada de
errado comigo. Fiquei intrigada com aquele comportamento, porque o estilo deles
é que era diferente ali. Será que na cultura deles também se ri dos outros?
Migrar faz sofrer; faz nada!
Depende da forma como se vai usar a migração. Se de uma maneira penitente ou
contemplativa.
Quem não consegue ver a
diversidade com bons olhos, vai ter que ficar sem conhecer as culturas alheias. Ou terá de se mudar para as aldeias, onde nem sempre estarão livres dos
intrusos, kkkkk.
Viva o riso e a diversidade!