sábado, 6 de julho de 2013

O SORRISO E A DIVERSIDADE


Eu, assim que cheguei a Portugal a trabalhar em um Café, fui tentar conversar com uma cliente francesa: Tu es professeur de Français?
Ela: Pardon?
Eu, no call center: Je ne parle pas Français très bien.
Ela: kkkkkkkkkkkkk
Ela , a senhora do caixa de um supermercado (falando baixo para ninguém perceber): O que é isto?
Eu: beterraba.
E ela de novo: O que é isto?
E eu: É coco (rsrsrs).
Ela, toda sem jeito e chateada: é que eu não conheço isto( falando baixinho).
Ela ficou sem graça, porque não queria parecer ignorante. Eu não a achei uma ignorante, só achei engraçado alguém desconhecer um coco. Mas o que é conhecido para uns, pode não ser para outros. É no que dá morar em cidade cosmopolita! A senhora poderia usar a situação, para aprender mais uma curiosidade.
Eu ri, mas não foi de deboche. Ela, a francesa também não riu de deboche (acho eu).
É que é engraçado ver alguém não conhecer o que para nós é tão comum. Afinal, o coco é tão usado em bolos e doces. Ah, mas já vem no saquinho. O bagaço do coco…
A miúda tinha acabado de chegar do Brasil e estávamos as duas na fila do supermercado, quando o rapaz do caixa nos perguntou o que era aquela fruta (abacate). Ela começou a rir sem parar, deixando o rapaz e eu constrangidos. Ela não o fez por mal. É que às vezes o riso, se traduzido pode querer dizer: "como você ainda não conhece algo já tão comum nos supermercados daqui!?".
Apesar de que certos risos, se traduzidos, melhor seria se não tivessem sido. Ontem mesmo eu recebi um sorriso torcido, que traduzido diria algo como: "você é uma estrangeira ignorante". Por inúmeras vezes tento explicar que quero um alimento sem carne e as pessoas pensam que estou me referindo à carne bovina. Aí dizem: “este alimento não contém carne; só frango, peixe, crustáceos”. Aff, para mim, tudo o que ‘não dá na árvore’ é carne. Se não estou num estabelecimento, cuja especialidade é a comida vegetariana, difícil é explicar que quero algo que não contenha produtos de origem animal, se em tudo tem leite, ovos. Estes ingredientes eu até posso tolerar, o que eu não quero é ca-dá-ver. "Mas se os vegetais estão mortos, também são cadáveres." Deixa quieto, vai…
Mas o sorriso é uma forma de comunicação não verbalizada, ou seja, que não usa as palavras sob a forma de sons, para se dizer o que se pensa, mas que pode transmitir muitos sentimentos, até mesmo de raiva ou de desprezo.
Ao receber sorrisos tortos, palavras depreciativas, por ser estrangeiro, muita gente sai correndo de volta ao país de origem. Eu não. Quero é mais conhecer a diversidade. Quanto mais eu fico, mais eu conheço. E se pudesse, conheceria mais ainda. Paro para observar que damasco aqui é mato, enquanto que no meu país é artigo de luxo. E fico apreciando um pé carregadinho de maçãs e de pera rocha. Ops, um pé é carregadinho de dedos e não de frutas! É que lá onde eu nasci se diz pé de frutas e aqui se diz árvore de frutas. Lá se diz chupar laranja e aqui se diz comer laranjas. Mas lá também, na minha cidade se diz: cá fora (como se diz aqui) e noutra região do Brasil, riam de mim quando eu dizia isto, porque lá se diz (não, se fala): aqui fora.
E as pessoas quando ouvem algo diferente, a primeira reação que vêm é o riso. O riso deveria unir e não separar. Depende, quando se ri de quem leva um belo tombo, eu não acho graça nenhuma. Quando eu escorreguei aqui pela primeira vez, fiquei esperando um riso que não veio. Que bom! Um senhor veio me levantar, todo preocupado. Ai, foi como um beijinho no dodói, tão bom! Ele perguntou: magoou-se? E eu fiquei admirada com tanta gentileza. Voltando ao riso... Por outro lado, se saio de sombrinha ou guarda-sol na rua, em dia de verão, o que vejo de risinhos contidos me deixam com vontade de ir embora. E voltando à gentileza, eu estava no centro de Lisboa, numa paragem do bus (é assim que os jovens falam e acho mais chique), quando vesti uma manga do casaco, percebi que a outra já estava esperando a minha mão. Um gentil primo (africano) já estava a me auxiliar, com todo o respeito. Fiquei admirada e contente por conhecer mais uma curiosidade. Será que lá no país dele é assim? 
E para não perder o foco no riso, certa vez eu estava no supermercado eu ouvi uma criancinha feminina a dar gargalhadas altas e gostosas, e o irmão que já tinha atingido a fase do superego a repreendê-la dizendo: não rias assim! Na época eu achei aquilo triste, mas agora eu já acho esquisito ver alguém rindo às gargalhadas. No país onde nasci, o sorriso é algo bom, simpático, hospitaleiro (a não ser quando alguém cai, né). Depois que me desacostumei daquele jeito de viver, passei a ver o riso exagerado como algo estranho.
Dentro do meu próprio país, eu tinha migrado de uma cidade, onde havia muitos amigos que me faziam rir até doer o abdômen, para uma região onde raramente eu encontrava alguém com esse espírito cômico. Quando fui passear na minha cidade, um adolescente olhou para a minha cara e disse para a sua amiga: "mas você é feia hein, fulana!". Fiquei brava, achei aquilo o fim da picada, retruquei. Como pode um miúdo que nunca me viu, mexer comigo assim! Eu havia me desacostumado. Lá, ainda era normal alguém mexer com quem estivesse quieto. Era divertido, mas para mim já passara a ser absurdo.
Noutro dia eu estava sentada na esplanada de um shopping, ao lado de uma mesa onde havia uma família de traços e indumentárias meio de lá de perto da Índia, talvez do Paquistão, tal-vez. A mãe me olhava e olhava. Logo depois, pai e filha me olhavam e riam. Após certificação, não havia nada de errado comigo. Fiquei intrigada com aquele comportamento, porque o estilo deles é que era diferente ali. Será que na cultura deles também se ri dos outros?
Migrar faz sofrer; faz nada! Depende da forma como se vai usar a migração. Se de uma maneira penitente ou contemplativa.
Quem não consegue ver a diversidade com bons olhos, vai ter que ficar sem conhecer as culturas alheias. Ou terá de se mudar para as aldeias, onde nem sempre estarão livres dos intrusos, kkkkk. 
Viva o riso e a diversidade!

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